Crônicas

Dez dias dentro de um jipe *

O jipe Willys 1959 já era um carro fora de moda, fabricado 25 anos antes, mas em Rondônia ainda tinha seu valor, pois era apropriado para os atoleiros e lamaçais. Meu plano era viajar sozinho, mas na última hora um colega de faculdade resolveu pegar uma carona. Melhor, ele também era advogado recém-formado e, assim como eu, buscava um novo horizonte.

Primeiro dia (quarta-feira, 28/12/1983):

Na madrugada, tomei o rumo da minha aventura, saí de Londrina, passei por Rolândia, apanhei meu companheiro em casa, sua mãe nos preparou um embornal com rissoles quentinhos, seu pai deu um giro ao redor do jipe verificando o estado dos pneus e seguimos para o oeste, passando por Maringá e Paranavaí, até chegarmos na balsa do Rio Paraná, onde devoramos famintos aqueles adoráveis salgados.

Esse caminho alternativo, sem passar pela ponte de Porto Epitácio, pelo contrário, incluindo estradas de chão e entrando em Mato Grosso do Sul através de uma balsa merece uma explicação. Foi devido a um advogado que morava em Naviraí, irmão de uma colega da CEF, com o qual eu queria muito trocar experiências, pois em outros tempos ele empreendeu uma aventura parecida com a minha, embora menor em termos de distância. Não o encontrei, infelizmente, por isso seguimos viagem. Pernoitamos no pátio de um posto de combustível em Fátima do Sul, perto de Dourados. Meu amigo era grandão, por isso cedi a ele o banco da frente, enquanto eu dormia em cima das caixas e das malas no compartimento traseiro, rente à capota de lona.

Segundo dia (quinta-feira, 29/12/1983):

A maior parte do tempo era eu quem dirigia, sempre fui aficionado pelo volante. Até Campo Grande, enfrentamos um trânsito terrível de caminhões e fumaça das queimadas nos canaviais que, àquela época, eram comuns, antes de inventarem a colheita mecanizada. As barreiras policiais eram frequentes por conta do contrabando na região, mas principalmente porque soava estranho respondermos aos guardas que éramos dois advogados a bordo de um jipe antigo indo tentar a sorte em Rondônia. Enfim, chegamos em Campo Grande, já noite alta, e novamente dormimos em um posto de combustíveis bem na entrada da cidade. Para economizar, não fazíamos refeições regulares, comprávamos frutas à beira da estrada ou sanduíches em padarias ou bares. Nenhuma vez sequer comemos em um restaurante.

Terceiro dia (sexta-feira, 30/12/1983):

Com aqueles pneus estreitos e uma estabilidade muito precária, o jipe seguia rodando lentamente no asfalto quente e no sol inclemente, dificilmente passava dos 70 km/h, mas tinha a vantagem de ventilar muito por conta das janelas de lona nas laterais e na traseira que iam sempre abertas. Seguindo o rumo noroeste e as fraldas do Pantanal, o calor ia aumentando gradativamente e na mesma proporção íamos nos livrando das roupas formais para adotar o traje estradeiro: chinelos, bermuda e camiseta. Naquela época, os postos de combustível mantinham tambores com água ao lado das bombas, nos quais eu costumava mergulhar a cabeça e sair aliviado, mesmo sob os protestos do meu companheiro. O luxo e o conforto iam ficando para trás.

Quarto dia (sábado, 31/12/1983):

Era o último dia do ano, estávamos nas proximidades de Rondonópolis e havia um aviso na bomba de gasolina informando que não aceitavam pagamentos em cheque. A vontade de chegar a Cuiabá era grande, o feriado se aproximava, então, pensei comigo, dois advogados não poderiam se submeter a uma afronta como aquela. Abasteceríamos e depois eu daria um jeito.  Quando, porém, eu saquei o meu talão de cheques, o frentista deu um pulo:  “cheque nós não aceitamos, o senhor não viu o cartaz? “ Comecei então a argumentar: “como não? O cheque é um meio de pagamento garantido por lei, é uma ordem de pagamento à vista previsto na Lei Uniforme de Genebra e tal e tal…”. Chamaram o gerente, que veio irritadíssimo porque ainda estava dormindo. Quando ele nos viu naqueles trajes, mal dormidos dentro do jipe, sem banho e ainda por cima nos apresentando como dois advogados, o homem não teve dúvidas, mandou retirar a gasolina do tanque. Foi a minha primeira derrota lá pelos confins de Mato Grosso, mas uma derrota apenas parcial, pois não conseguiram esgotar todo o combustível do tanque e ainda tivemos condições de sair pela cidade procurando outro posto que, afinal, aceitou o pagamento em cheque para seguirmos viagem. Naquele tempo, nem se sonhava com cartões e outras facilidades de hoje em dia, o viajante levava uma certa importância em dinheiro vivo, mesmo sendo suscetível a assaltos, e o restante tinha que recorrer aos bancos durante o horário comercial. Em Mato Grosso e Rondônia, terra de forasteiros, os cheques eram muito mal-vistos.

Quinto dia (domingo, 01/12/1984):

Na Serra de São Vicente, que divide o planalto de Jaciara e o baixio de Cuiabá, acordamos com as buzinas e fogos de artifício pela passagem do ano novo. Mais um pouco de estrada e chegamos na capital de Mato Grosso, onde o irmão do meu companheiro de viagem morava em uma república de estudantes de engenharia. Fizemos um pequeno churrasco, à noite fomos à missa na catedral de Cuiabá, mas o mais incrível foi poder dormir esticado em uma cama ao invés de espremido dentro do jipe.

Sexto dia (segunda-feira, 02/01/1984):

Entre Cuiabá e Cáceres, só os primeiros 70 km eram asfaltados. Daí para a frente, seriam 1.400 km de pura terra, poeira e lama. Nesse primeiro trecho, o jipe deu de apagar o motor. Quando abri o capô, notei que a bobina elétrica estava pelando de tão quente. Refresquei-a com uma toalha banhada em água e o motor voltou a funcionar, mas, logo depois, morreu novamente. Na minha dedução lógica, raciocinei: é a bobina que está com defeito!  Deixei o meu amigo cuidando do jipe, tomei uma carona na carroceria de um caminhão e voltei para Várzea Grande, distante uns 50 km. Comprei uma bobina nova, fui à beira da estrada e consegui carona de volta em um outro caminhão. Troquei a peça, o jipe voltou a funcionar. Mas o asfalto logo terminou e o jipe voltou a falhar novamente. Não é possível, escurecia, a poeira dos caminhões era terrível e o jeito foi enrolar novamente a toalha na bobina e ir molhando de tempos em tempos com a água que captamos em um córrego.

Nesse trecho, houve um episódio cômico: depois de todas essas idas e vindas, era bem tarde da noite e nós descíamos a chamada Serra do Boi Morto, seguindo atrás de um caminhão que, por sua vez, transportava na sua carroceria um outro caminhão, só que virado com a frente para trás. Meu amigo cochilava no banco do passageiro e de repente, no meio daquela confusão de poeira e faróis, ele despertou assustado, viu a frente do caminhão apontando para nós, pulou no volante gritando que seríamos atingidos. Foi um custo tremendo manter a direção do jipe e controlar meu companheiro ao mesmo tempo, até que ele tomasse tento do que realmente estava acontecendo.

Sétimo dia (terça-feira, 03/01/1984).

Por vezes, a solução está onde menos se espera. Em Cáceres, encontrei um mecânico muito interessante que antes mesmo de abrir o capô me perguntou qual o sintoma apresentado pelo veículo. Diante da minha resposta, ele sentenciou taxativo: “é a resistência que fica entre a bateria e a bobina, nem precisava ter comprado uma nova”. Em alguns minutos, ele trocou essa pequena peça e nunca mais tive problemas com a bobina, quero dizer, pelo menos enquanto o jipe continuou sendo meu.

Naquele ponto, o Rio Paraguai banha a cidade e é atravessado por uma grande ponte muito alta na sua parte central para que sob ela passem as embarcações. Na entrada dessa ponte, um soldado do Exército enfiou o cano do seu fuzil dentro do nosso jipe para verificar o que trazíamos. Quando falamos que aquelas caixas estavam cheias de livros e que nós éramos dois advogados, ficou tão confuso pelo extraordinário da resposta que chamou o seu superior. Depois de um certo diálogo, o oficial nos recomendou muito cuidado naquela região de fronteira e desejou-nos muita sorte na viagem e na nova vida que iríamos encontrar.

Nesse trecho da viagem, tivemos uma agradável surpresa, pois muito diferente de quando eu voltei de Porto Velho a bordo de um ônibus, não havia mais atoleiros, apesar das chuvas constantes. Mesmo sem o asfalto pronto, as empresas responsáveis pela obra permitiam o tráfego sobre a terraplenagem, única forma de garantir a passagem dos veículos. Por isso, nos livramos dos terríveis desvios e conseguimos chegar em Vilhena, a primeira cidade de Rondônia, não sem antes tomarmos a vacina contra febre amarela, na divisa de estados. Entrávamos oficialmente na Amazônia.

Oitavo dia (quarta-feira, 04/01/1984):

Por conta da altitude, o planalto dos Parecis tem um despertar grandioso, com o sol nascendo limpo e distante. Estávamos agora exatamente sobre a linha que Rondon seguiu em sua epopeia no começo do século XX e isso me emocionava. O novo estado transpirava otimismo e cada nova cidade tornava-se logo a coqueluche do momento. A bola da vez era Rolim de Moura, que embora situada fora do eixo da BR-364, a rodovia que corta todo o Estado de ponta a ponta, prometia possibilidades infinitas, pois diziam que ali estavam as melhores terras de Rondônia. Era feriado, terceiro aniversário da criação do Estado, por que não conhecer essa maravilha? Fomos.

Nesse trecho, o jipe mostrou a que vinha, pois a chuva era inclemente e a estrada secundária não se comparava à BR-364. Com muito esforço chegamos àquele povoado aberto no meio da mata. Era um apanhado de casas de madeira à beira de uma avenida com um canteiro central imenso, provavelmente inspirado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Naquela época, com lama nos dois sentidos, era difícil imaginar que todo aquele capinzal habitado por cavalos e bois seria um dia urbanizado. Tantos anos depois, vejo com admiração as imagens de satélite e a cidade que se formou ao redor daquele canteiro que, afinal ficou harmonioso com os novos prédios ao seu redor. Voltamos à BR-364 para pernoitar em Presidente Médici.

Nono dia (quinta-feira, 05/01/1984):

Ji-Paraná já era a segunda maior cidade do estado. A ponte sobre o Rio Machado era o único trecho calçado da rodovia e ponto obrigatório de passagem dos caminhões, ônibus e carros que desafiavam a natureza amazônica: poeira e lama. Continuávamos em regime de economia espartana: dormindo dentro do jipe e comendo frutas e o que estivesse mais em conta, como um queijo que devoramos no decorrer de um único dia. Do lado do motorista, o limpador do para-brisas era alimentado por um pequeno compressor e uma mangueira cuja pressão variava de acordo com a aceleração do veículo. Ao chegar a um local perigoso, ao invés de reduzir, era preciso acelerar para que o limpador funcionasse mais rapidamente. Do lado do passageiro, o limpador funcionava manualmente através de uma pequena manivela. Por sua vez, as janelas de plástico não vedavam as rajadas de vento, água e lama lançadas pelos caminhões que vinham em sentido contrário. O tempo todo ficávamos imundos. Em Ariquemes, apesar da fama de “capital da malária”, chamou-nos a atenção o planejamento das quadras, pois todos os terrenos tinham uma saída de serviço nos fundos, de modo que a frente das casas e prédios prometia ficar livre de obstáculos, resíduos ou lixo. Não sei que destino tiveram essas vielas, mas a ideia era original.

Décimo dia (sexta-feira, 06/01/1984):

Os duzentos quilômetros que separam Ariquemes de Porto Velho foram os piores. Anoiteceu e não havia onde pernoitarmos. A rodovia, muito plana nesse trecho, acumulava enormes lagoas que se iam afundando com o passar dos caminhões. Mesmo com a tração ligada, o que aumentava demais o consumo de gasolina, tínhamos que procurar as beiradas dessas lagoas, onde a profundidade era menor. Às vezes, erguíamos a capota do jipe para desfazer o bolsão de água acumulado lá em cima. Eu brincava com o meu companheiro: “um dia isso tudo vai se tornar plantação de soja” e ele me contradizia, pois era filho de cafeicultor e acreditava mais nas culturas permanentes de café e cacau. Acabávamos rindo porque era difícil manter opiniões contrárias em um espaço tão reduzido como o jipe.

Finalmente, a partir da ponte sobre o Rio Candeias, atingimos o tão aguardado asfalto, e depois de alguns quilômetros, avistamos as luzes de Porto Velho. A chuva e a escuridão finalmente cediam lugar a uma cidade iluminada, depois de tantas noites dormidas em cidades às escuras a partir de uma determinada hora. Em Rondônia, energia e estradas eram confortos escassos naquele tempo.

Chegar em Porto Velho foi um misto de alegria e inquietação! Dentro do peito havia um coração vitorioso por ter vencido o desafio de viajar 3.000 km em um jipe velho, mas o mesmo coração me indicava que eu não tinha tempo a perder, pois a minha nova vida estava agora começando.

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Eu simplesmente não tinha dinheiro para pagar um hotel. Abro aqui um parêntesis para registrar um tributo de gratidão. Na minha primeira viagem a Porto Velho, quando vim conhecer o Estado, encontrei um amigo simples e humilde, mas um grande coração. Vivia com a mãe viúva em precaríssimas condições materiais, ele um simples balconista, ela uma pobre mulher afeta aos serviços domésticos. Mesmo assim, com todas as limitações que a vida lhes impunha, ofereceram-me abrigo e acomodação a troco de absolutamente nada, nunca me cobraram por isso, apenas celebravam a honra de receberem em casa um advogado vindo do Sul que lhes era educado, simpático e, portanto, bem-vindo. Tempos depois, quando eu já havia me estabelecido, já tinha melhores condições, tentei visitá-los, mas não os encontrei mais. A velha casa havia sido demolida e não consegui outras informações. Fica aqui a minha eterna gratidão a esses amigos incógnitos, estejam onde estiverem.

No dia seguinte, mandei lavar o jipe para retirar toda aquela lama. Era o mesmo que saiu de Londrina, só que 3.000 km mais “experiente”. Fiquei filosofando sobre o grande serviço que ele me prestou, tirou-me de um mundo do qual eu queria sair, trouxe-me a outro no qual eu queria chegar. Por incrível que pareça, cumpriu-se a profecia daquele sujeito no ônibus sobre ganhar dinheiro trazendo um jipe, pois eu o comprei por Cr$ 500 mil cruzeiros, gastei Cr$ 300 mil cruzeiros em combustível, aquela bobina comprada em Várzea Grande e a resistência em Cáceres e a acabei vendendo-o por R$ 900 mil, ou seja, ganhei a viagem e algum dinheiro, mas muito mais do que isso, ganhei essa história verídica que acabo de contar para vocês.

 

(*) Vicente Magalhães é advogado em Curitiba.

 

 

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