Escolhi a faculdade de Direito mais por pragmatismo do que por amor à arte. Sim, desde os meus 14 anos, eu já trabalhava com carteira assinada e em regime integral, por isso, fiz o meu ensino médio no período da noite e estava fadado a seguir um dos cursos noturnos oferecidos pela Universidade de Londrina. Como só se falava em inflação, carestia e planos de governo, pensei primeiro em Economia, mas uma colega de trabalho, um verdadeiro anjo da guarda, puxou-me de lado e clareou minhas ideias: “pense bem, Vicente, cursando Direito você terá maiores possibilidades para escolher”. Nunca esquecerei ela enumerando nos dedos da mão: “você, que é esforçado e gosta de estudar, poderá ser advogado, juiz, promotor, delegado, funcionário público, pense bem!”. Era o que faltava para eu me decidir.
A notícia causou resistências em casa, pois chegaram a vaticinar que eu estava fadado a ser “um homem comum”. Não os culpo, naqueles tempos de governo militar, as profissões valorizadas eram Medicina e Engenharia, as ciências sociais como o Direito vinham em segundo plano. Porém, teimoso como eu sempre fui, ávido pela minha independência, bati o pé e fui em frente, eu queria e precisava trabalhar durante o dia e os cursos diurnos estavam fora das minhas possibilidades.
Para minha felicidade, na primeira semana de aulas eu já percebi que tinha feito a escolha certa, principalmente quando descobri que um direito a gente não suplica, não se pede, exige-se. Parece pouco, mas para mim, criado naqueles tempos de hierarquia rígida, que me julgava pouco carismático e mais afeto à luta do que à simpatia, achei aquela ideia magnífica: exigir ao invés de suplicar. Na primeira Semana de Estudos Sociais da qual eu participei, levanta um sujeito na plateia e grita: “liberdade não se implora de joelhos, exige-se em pé e, se necessário, com armas na mão”. Uau!, foi quase uma apoteose, gostei, na verdade, amei!
Apesar do cansaço, depois de um dia exaustivo de trabalho e da viagem de ônibus coletivo até o campus universitário (só quem estudou à noite sabe do que eu estou falando), procurei ser um bom aluno, daqueles que sentam na primeira carteira e irritam todos os colegas tentando prender a atenção do professor. Confesso que eu era chato e comecei a observar e copiar os meus professores no seu jeito de falar e de se portar, principalmente aqueles que eram advogados praticantes e que desde o início me seduziram. Comprei um paletó e adorava vê-los contando os seus casos e as soluções que encontravam dentro da lei. Fui tão obcecado pela ideia de não perder tempo, que acabei cursando os cinco anos em quatro e meio. Explico: naquela época, a universidade oferecia os chamados “cursos de férias” para quem havia reprovado em alguma matéria. Neles, todo o conteúdo era ministrado intensivamente em quatro semanas. Aproveitando-me disso, ao invés de desfrutar das férias letivas, passei a adiantar matérias dos períodos mais avançados. Graças a isso, consegui adiantar minha formatura. Para mim, um eterno ansioso, antecipar seis meses significava um enorme diferencial, muito embora com isso eu estivesse também adiantando a hora de tomar enormes e difíceis decisões.
Durante os quatro anos e meio da faculdade, minha vida mudou muito. Eu me casei, ingressei e progredi na carreira administrativa da Caixa Econômica Federal. Um mês antes da minha formatura, nasceu minha primeira filha, Carolina. Era difícil lidar com tudo isso, tendo 23 anos, ganhando pouco e sonhando grande. Naquela época, quem fazia estágio era dispensado do exame da OAB. No meu caso, como eu trabalhava durante o dia, não tive esse privilégio e me submeti às provas escrita e oral. Porém, na véspera da arguição oral, saí do trabalho correndo para dar uma revisada na matéria, um carro cortou a minha frente e acabei sendo arrastado no asfalto por uns 50 metros. Quando me dei fé, estava todo machucado, minha moto destruída e meus códigos espalhados pelo chão. Foi devastador, saí do pronto socorro com as roupas rasgadas e vários curativos pelo corpo, tomei um ônibus, mas não conseguia esquecer a prova no dia seguinte. Nervoso, sentindo dores, sem saber se eu seria indenizado pela moto, meu único patrimônio, pois a causadora do acidente era filha de um polêmico empresário e ex-delegado de polícia, enfim, fui para a arguição da OAB revoltado com o destino que naquele momento estava sendo muito cruel comigo. E ficaria pior ainda, pois tão desesperado eu estava que não consegui responder uma pergunta que hoje considero elementar, de tão simples. Resultado: fui reprovado!
Levou muito tempo para que eu compreendesse que aquela reprovação no exame oral da OAB era o melhor que poderia me acontecer. Aquele “não” me abriu horizontes e acabou me fortalecendo para as lutas da vida, embora eu não tivesse o futuro nitidamente delineado. De fato, depois do acidente e da reprovação, ao invés de capitular, deixei-me tomar por uma espécie de revolta e autocobrança, passei a acreditar que o meu destino não se ligava mais a Londrina e que deveria me aventurar em outras terras. Isso se tornou ainda mais evidente quando, pouco tempo depois, houve um concurso interno para o quadro de advogados da CEF, do qual eu não pude participar justamente porque não estava inscrito na OAB. Fiquei mortificado!, achei que tudo se voltava contra mim, mal sabia eu que atrás daquela nuvem negra, havia a luz com a qual eu tanto sonhava.
Nesse tempo, agosto de 1983, encontrei uma colega de faculdade, formada um tempo antes e já morando em Rondônia, que me encheu de notícias alvissareiras. Ela me empolgou falando das possibilidades profissionais, do Estado que estava sendo formado e de tudo ainda que havia por fazer. Quando marcaram as minhas férias na CEF para novembro, ao invés de eu descansar, como seria normal, resolvi conhecer aquele lugar tão afamado. De ônibus, até Cuiabá, porque era mais barato, e depois de avião, até Porto Velho, porque não havia outro jeito, voei pela primeira vez, comprando a minha passagem pela antiga Varig para pagar em 12 parcelas. Eu tinha recém completado 24 anos.
A magnitude da Amazônia me deixou impressionado desde o início. Vistos de cima, o Rio Madeira e a floresta ao seu redor eram verdadeiros gigantes da natureza. O calor da atmosfera comungava com o calor do acolhimento. Eu era minúsculo naquele lugar estranho, mas todos me recebiam com a maior boa vontade, até com algum prestígio, coisa estranha para mim. Ao invés de concorrência, havia uma certa solidariedade entre os que chegavam e os que já estavam estabelecidos, pois, afinal, todos tínhamos algo em comum, estavam ali para “ganhar a vida”, o Estado era recém criado e havia espaço para todos. Logo de cara, fui avisado que haveria um exame da OAB nos próximos dias, para o qual eu me inscrevi rapidamente. Fui aprovado e mereci até elogios do examinador, inclusive com direito a fazer a saudação de agradecimento em nome dos novos advogados. Eu não me aguentava de tanta felicidade, parecia que eu estava chegando à “Terra de Canaã”, e realmente estava!
O dinheiro que eu dispunha era curto, curtíssimo, por isso, dependi da acomodação de alguns amigos. Fiquei perambulando para conhecer pessoas e procurar oportunidades de trabalho. Recebi várias propostas de escritórios, mas embora eu quisesse deixar o emprego na CEF, afinal já estava inclusive habilitado perante a OAB, eu tinha uma esposa e uma filha que dependiam de mim. Em resumo, eu não tinha tempo a perder e precisava de uma renda para sustentá-las. Foi quando um amigo sugeriu que fôssemos falar com um certo Secretário de Estado. Naquela época, usava-se rechear o currículo até com a certidão de batismo, quem é mais velho, lembra disso. Muito bem, feitas as apresentações de praxe, o amável secretário foi folheando o meu caderno de vida até que de repente parou em um certificado ao qual eu nunca dei muita importância. Indagou-me então a respeito e disse que aquela habilitação era de fato muito interessante. Perguntou-me se realmente eu queria vir para Rondônia e como eu respondi que sim, sem pestanejar, pediu licença para fazer uma ligação: “alô, coronel?” — o meu amigo me explicou baixinho que ele estava falando com o governador do Estado — “eu estou aqui com um advogado paranaense muito bom e ele quer vir para Rondônia. Gostei muito do currículo dele. Apesar daquele decreto suspendendo as contratações, o senhor me autoriza a contratá-lo com data anterior?”. O meu coração exultava, em poucos minutos saí dali com um contrato no bolso: advogado do Estado de Rondônia. Pedi apenas para começar nos primeiros dias de janeiro, tempo suficiente para acertar a minha saída da CEF, arrumar meus pertences e mudar de vida.
Ainda me sobravam alguns dias das férias, por isso, para conhecer tudo que fosse possível, resolvi enfrentar de ônibus o trecho lamacento de 1.500 km até Cuiabá. Quando embarquei, perguntei ao motorista que dia nós chegaríamos e ele me respondeu que só sabia o dia da partida, a chegada dependeria de Deus, da estrada e dos atoleiros, já que vinha chovendo todos os dias. E ele tinha razão, para vencer o primeiro trecho, desviando de caminhões atravessados na estrada, foram cinco dias e quatro noites. Era comum os passageiros serem convocados para empurrar o ônibus e depois voltarem imundos para continuar a viagem. Havia gente de todo tipo, alguns humildes e serviçais, outros revoltados e arrogantes, ou ainda aqueles que tremiam com a malária que os castigava. Um deles sugeriu que eu faria ótimo negócio trazendo um jipe do Paraná para vender em Rondônia, pois possuindo tração nas quatro rodas, era muito procurado. E foi justamente o que eu fiz!
Cheguei em Londrina todo garboso. Já não me imaginava mais naquele ambiente sofisticado da CEF, seguindo aquelas regras burocráticas que agora me pareciam totalmente absurdas. Não me interessava mais o ar condicionado, a água mineral ou os móveis padronizados. O relógio-ponto pareceu-me um acinte, afinal, eu já não me considerava um economiário, mas um “advogado do Estado de Rondônia”. Apesar de tudo que aquele emprego me proporcionou nos primeiros tempos, ele já não cabia mais em mim. Fui criticado e desestimulado pela maioria dos meus colegas, mas nada, absolutamente nada me convenceria do contrário. Pedi demissão!
A sugestão do jipe me convenceu, claro. No Natal, eu já estava com o meu, um Willys 1959, mesmo ano do meu nascimento, cinza claro, capota de lona, bancos e pneus em regular estado de conservação, nada de especial, mas tudo o que eu precisava. Naquele tempo, o jipe já era um carro fora de moda, já havia rodado mais de 25 anos e ninguém acreditava que eu o levaria (ou melhor, ele me levaria) a 3.000 km de distância. Dei ao vendedor um cheque de Cr$ 500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros), contei-lhe o meu plano maluco e lhe pedi um prazo de 30 dias. O dinheiro da minha rescisão eu deixei com a Eliana, minha mulher, para que ela se mantivesse nos primeiros meses, enquanto concluía a sua faculdade de Psicologia. Sustentar-me e pagar o jipe, isso era problema meu.
Veio o dia 27 de dezembro, comemorei o meu terceiro aniversário de casamento, arrumei minha pequena mala de roupas e fechei uma caixa de papelão com os poucos livros que comprei durante a faculdade, despedi-me dos parentes e na madrugada do dia 28, com meu coração nas mãos, beijei o que eu tinha de mais precioso, minha mulher e minha filha, uma boneca de sete meses. Ainda me lembro de vê-las pelo retrovisor me acenando. Foi difícil, mas tive que deixar o espelho de lado e olhar para o para-brisas, pois ali na frente estava o meu futuro.
(*) Vicente Magalhães é advogado em Curitiba.